Autocobrança

Por que é tão difícil descansar sem sentir culpa?

Nem sempre ter tempo para descansar significa conseguir realmente parar. Para algumas pessoas, justamente quando as tarefas diminuem aparece uma sensação incômoda de que ainda existe alguma coisa que deveria estar sendo feita.

Por Jheniffer Lorraine Queiroz de Araujo — Psicóloga, CRP 06/2022766 min de leitura

Você termina aquilo que precisava fazer.

Finalmente existe algum tempo livre.

Senta no sofá, tenta assistir alguma coisa ou simplesmente decide não fazer nada.

Mas o descanso não chega sozinho.

Logo aparece uma lembrança de alguma tarefa pendente.

Uma mensagem que poderia ser respondida.

Alguma coisa da casa.

Algo do trabalho.

Uma responsabilidade que talvez nem fosse urgente.

E, de repente, aquilo que deveria ser descanso começa a vir acompanhado de uma sensação estranha de culpa.

Talvez você até saiba racionalmente que está cansada e que precisa parar.

Ainda assim, alguma coisa parece dizer:

“Você poderia estar fazendo alguma coisa.”

Quando isso acontece repetidamente, talvez exista uma pergunta interessante antes de procurar novas técnicas de produtividade: por que descansar pode ser tão difícil?

Descansar não depende apenas de ter tempo disponível

Normalmente pensamos no descanso como uma questão prática.

Se existe trabalho demais, falta tempo para descansar.

Isso certamente acontece.

Mas nem sempre a dificuldade termina quando aparece tempo livre.

Existem pessoas que conseguem interromper as tarefas fisicamente e, mesmo assim, permanecem mentalmente ocupadas.

O corpo parou.

A cabeça continua revisando aquilo que falta.

É como se a ausência de atividade precisasse ser justificada.

Nesse ponto, talvez a pergunta deixe de ser apenas:

Antes

“Quanto tempo eu tenho para descansar?”

E passa também a incluir

“O que acontece comigo quando eu paro?”

Quando fazer muito passa a fazer parte da maneira como você se reconhece

A maneira como nos relacionamos com responsabilidade não começa na vida adulta.

Ao longo da história de cada pessoa, determinadas formas de receber reconhecimento, cuidado e aprovação podem ganhar importância.

Ser responsável.

Ajudar.

Não dar trabalho.

Cumprir aquilo que esperam.

Resolver problemas.

Estar disponível.

Nenhuma dessas características é necessariamente um problema.

Muitas delas podem fazer parte de relações importantes e de uma vida adulta saudável.

A questão começa a ficar mais interessante quando deixar de produzir, ajudar ou resolver alguma coisa provoca incômodo.

Nesse caso, fazer pode não estar relacionado apenas às tarefas.

Também pode estar relacionado à maneira como a própria pessoa aprendeu a ocupar um lugar diante dos outros — e diante de si mesma.

Às vezes, não fazer nada por algumas horas parece mais difícil do que continuar fazendo.

Nem toda cobrança precisa vir de outra pessoa

É possível passar muitos anos respondendo a expectativas e, com o tempo, já não precisar que alguém repita essas expectativas em voz alta.

Elas podem começar a fazer parte da própria maneira de se cobrar.

Por isso, uma pessoa pode estar sozinha em casa, sem ninguém exigindo nada naquele momento, e ainda assim sentir que deveria estar sendo útil.

Essa contradição aparece de maneira bastante clara em duas frases:

Eu sei

“Eu preciso descansar.”

Eu sinto

“Eu deveria estar fazendo alguma coisa.”

As duas podem existir ao mesmo tempo.

E isso ajuda a perceber que conhecer racionalmente uma necessidade nem sempre é suficiente para conseguir vivê-la com tranquilidade.

Por que a culpa pode aparecer justamente no descanso?

A culpa nem sempre aparece porque alguém fez alguma coisa errada.

Em algumas situações, ela pode surgir quando a pessoa se afasta de uma expectativa que aprendeu a considerar importante.

Talvez descansar signifique temporariamente não ser aquela que resolve.

Não estar disponível.

Não produzir.

Não antecipar aquilo que os outros precisam.

Não cumprir imediatamente uma responsabilidade.

Isso pode parecer simples quando colocado em palavras.

Mas, dependendo da história de cada pessoa, abrir mão temporariamente desses lugares pode provocar muito mais desconforto do que parece.

Descanso também pode tocar na ideia de merecimento

Outra questão que pode aparecer é a sensação de que o descanso precisa ser conquistado.

Primeiro eu termino tudo.

Depois eu descanso.

O problema é que “tudo” raramente termina.

Sempre existe alguma coisa que poderia ser organizada, melhorada, respondida ou antecipada.

Quando o descanso depende de não existir mais nenhuma tarefa, ele pode ser constantemente adiado.

E, em alguns casos, surge uma lógica ainda mais exigente:

“Eu só posso parar depois de fazer o suficiente.”

Mas quanto é suficiente?

Essa resposta nem sempre é objetiva.

Para alguém muito acostumada à autocobrança, a linha pode continuar se afastando à medida que ela se aproxima.

Isso significa que toda dificuldade para descansar é psicológica?

Não.

Existem rotinas realmente exaustivas.

Trabalho, maternidade, responsabilidades domésticas, estudos, dificuldades financeiras e cuidados com outras pessoas podem deixar pouco tempo disponível para descanso.

Não seria adequado transformar condições concretas de sobrecarga em uma questão exclusivamente individual.

Mas as duas coisas também podem coexistir.

Pode existir muita coisa para fazer e, ao mesmo tempo, uma dificuldade subjetiva para reconhecer limites.

Pode existir falta de tempo e também culpa quando finalmente aparece algum tempo.

É justamente por isso que histórias diferentes não devem receber explicações prontas.

E onde entra a psicoterapia?

A psicoterapia não precisa transformar o descanso em mais uma tarefa que você deve aprender a cumprir corretamente.

O objetivo não é sair de uma sessão com a obrigação de descansar melhor.

Na abordagem psicanalítica, pode existir espaço para compreender aquilo que aparece quando você tenta parar.

A culpa.

A cobrança.

Os pensamentos.

A sensação de improdutividade.

A dificuldade de deixar uma responsabilidade para depois.

O medo de decepcionar.

Ou qualquer outra coisa que seja própria da sua experiência.

Talvez uma pergunta como:

“Por que eu não consigo descansar?”

aos poucos abra espaço para outras:

“De quem eu sinto que preciso dar conta?”

“O que significa, para mim, não estar produzindo?”

“Quando aprendi que preciso estar sempre disponível?”

“O que eu imagino que aconteceria se alguma coisa ficasse para depois?”

As respostas não precisam ser iguais para todas as pessoas.

É justamente a história particular de cada uma que interessa ao processo.

Descansar não precisa significar abandonar responsabilidades. Mas talvez seja importante compreender por que, em alguns momentos, cuidar de si mesma parece uma responsabilidade menos urgente do que todas as outras.

Talvez a dificuldade não esteja apenas em parar

Às vezes, conseguir descansar envolve mais do que organizar uma agenda.

Pode envolver reconhecer aquilo que aparece quando a agenda finalmente fica vazia.

Se culpa, cobrança ou desconforto surgem justamente nos momentos em que você tenta desacelerar, talvez exista algo nessa experiência que mereça ser compreendido com mais atenção.

Não porque exista uma forma correta de descansar.

Mas porque a maneira como cada pessoa se relaciona com trabalho, cuidado, responsabilidade e pausa também faz parte de sua história.

Este conteúdo possui caráter informativo e reflexivo. Ele não tem como objetivo realizar diagnóstico e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico individual.

Sobre a autora

Sou Jheniffer Lorraine Queiroz de Araujo, psicóloga, CRP 06/202276, e realizo atendimentos psicológicos exclusivamente online. Meu trabalho é orientado pela abordagem psicanalítica e direcionado a mulheres adultas.

Referências e leituras que dialogam com esta reflexão

  • Freud, Sigmund. “O ego e o id.”
  • Freud, Sigmund. “O mal-estar na civilização.”
  • Klein, Melanie. “Amor, culpa e reparação.”
  • Winnicott, Donald W. “O ambiente e os processos de maturação.”

Jheniffer Lorraine Queiroz de Araujo
Psicóloga · CRP 06/202276

Algumas questões só podem ser compreendidas dentro da história de quem as vive.

Se você deseja conhecer melhor como funciona meu trabalho psicoterapêutico, pode acessar a página sobre psicoterapia.

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